Butao

Conheça Butão: o primeiro e único país carbono negativo do mundo

Abrangendo uma área pouco inferior à do Estado do Rio de Janeiro e localizado entre a primeira e quarta principais nações contribuintes dos Gases de Efeito Estufa (China e Índia), está Butão, o primeiro e único país no mundo que conseguiu alcançar o patamar de carbono negativo. Ou seja, Butão e seus 754.394 habitantes são responsáveis por retirar mais CO2 equivalente da atmosfera do que são capazes de emitir. Mas como isso é possível?

 

A constituição federal da então monarquia prevê que pelo menos 60% de todo o seu território deve ser mantido sob cobertura florestal, a qual por sua vez, funciona como um sumidouro de GEE.  Adicionalmente, sua matriz energética é majoritariamente composta por fontes de energia renováveis, em especial a energia hidroelétrica que é impulsionada pelo característico relevo montanhoso da região dos Himalaias. Seu vizinho indiano aproveita deste benefício, sendo o principal comprador de energia do país[1]. Assim dizendo, a articulação entre preservação da biodiversidade e a adoção de energias renováveis são o que tornam o país, internamente um sumidouro de carbono (carbon sink), e externamente um offset de carbono (carbono offset).

 

Mas não para por ai. O aparato legislativo do país é extremamente rigoroso quanto a crimes contra a biodiversidade. A produção e comércio de tabaco, uso de sacolas plásticas, fertilizantes químicos, pesticidas e sementes/culturas geneticamente modificadas são todos proibidos em Butão.  A legislação também impede o abatedouro de animais para consumo, embora comer carne não seja proibido pelo governo. Cabe relembrar que a religião dominante no país é o budismo, na qual prega-se a compaixão com os demais seres vivos, incluindo os animais, e o preceito de não matar. Ademais, a nação já está com inciativas para reduzir o consumo de papel, começando nos escritórios do governo, e para a substituição dos veículos convencionais por veículos elétricos.

 

Talvez você já tenha ouvido falar do país como o “Reino da Felicidade”. Essa denominação é atribuída ao fato de que a política nacional e os planos de desenvolvimento de Butão são norteados pelo Índice de Felicidade Interna Bruta (FIB). Com o apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em meados da década de 1970 Butão idealizou e criou o FIB como um indicador da felicidade da população do país, baseado em quatro pilares: i) desenvolvimento socioeconômico, sustentável e equitativo; ii) conservação ambiental; iii) preservação e promoção da cultura; iv) promoção da cultura. Os elementos básicos para calcular o FIB são um tanto quanto complicados de serem mensurados: saúde física, saúde mental, satisfação no trabalho, felicidade social, bem-estar político, bem-estar econômico e bem-estar ambiental.

 

Infelizmente seguindo o curso das mudanças climáticas a felicidade em Butão não será tão duradoura. Embora seja o único país carbono negativo no planeta, a população de Butão vem cada vez mais sofrendo com eventos catastróficos intensificados pelo fenômeno das mudanças climáticas como inundações, deslizamentos e o derretimento das geleiras do Himalaia. Este último merece atenção especial considerando que todo o sistema fluvial (e portanto, infraestrutura hidroelétrica) no país é alimentada por geleiras, a principal atividade econômica no país é a agricultura, e grande parte da população vive ao longo dos vales dos rios.

 

Butão é apenas um dos diversos países que irão pagar um alto preço pelas consequências de um fenômeno para o qual sequer contribuíram com suas causas. É nesse sentido que demais nações devem fazer tudo ao seu alcance para enfrentar esse fenômeno global que irá impactar a todos no planeta não importa onde. Imagine se o Brasil, com uma extensão aproximadamente 220 vezes maior do que de Butão, adotasse pelo menos o princípio da proteção da cobertura vegetal em 60% de seu território?

 

Se interessou pelo país? Pensou em fazer uma viagem para Butão? Tenha em mente que até 1974 a nação era fechada para turistas. Atualmente estrangeiros precisam pagar uma taxa diária de USD $200 – 250 por pessoa (a depender da época do ano)[2], que inclui a acomodação em hotel, refeições, um guia turístico que irá te acompanhar durante toda a sua viagem, e transporte (excluindo os voos internacionais). A parte boa é o dinheiro arrecado com o turismo é parcialmente reinvestido em políticas públicas e promoção de serviços essenciais para a população.

 

[1] Alam F., Alam Q., Reza S., Khurshid-ul-Alam S.M., Saleque K., Chowdhury H.Sourcing Green Power in Bhutan: A Review. Energy Procedia, 110 (2017), pp. 586-591
[2] Tourism council of Bhutan. Minimum Daily Package. Disponível em:< https://www.tourism.gov.bt/about-us/minimum-daily-package>.

 

 

Mais informações:

World Health Organization. Bhutan. Disponível em:< http://origin.searo.who.int/bhutan/about/about_bhutan/en/>

UNICEF. Bhutan. Disponível em:< https://data.unicef.org/country/btn/>.

The World Bank. World Development Indicators. Bhutan. Disponível em:<https://databank.worldbank.org/reports.aspx?source=2&country=BTN>.

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