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COVID-19 e Mudanças Climáticas

COVID-19: uma amostra da crise climática?

Dezembro de 2019 entrou para a história como, o início de uma nova era para a humanidade. Ao longo do mês múltiplos casos de pneumonia desconhecida na cidade de Wuhan (província de Hubei, China) viriam a ser confirmados como casos de Síndromes Respiratória Aguda Grave ocasionadas por um novo coronavírus. O vírus SARS-CoV-2, como então foi denominado o agente etiológico, associado à doença COVID-19 (do inglês Coronavirus Diseases 2019), foi rapidamente se espalhando pelas demais regiões do mundo e em 11 de março de 2020 passou a ser considerada como uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde1

Se por um lado a origem do novo coronavírus continua como incerta, já podemos trabalhar com a certeza de que em breve vivenciaremos novas pandemias, as quais muito provavelmente serão impulsionados pelos efeitos das Mudanças Climáticas. À medida que o planeta vai se aquecendo, o termo “Doenças Tropicais Negligenciadas” perde completamente seu sentido. Doenças que antes eram conhecidas por serem de ocorrência restrita em áreas tropicais vão fazer parte do cotidiano dos países em áreas temperadas, se é que o termo “temperado” também manterá sua conotação, como: esquistossomose, elefantíase, dengue, leishmaniose, febre amarela, e principalmente, enfermidades cuja transmissão envolve vetores como mosquitos e carrapatos.  

Os ingleses já foram de antemão avisados que até 2050 o clima em terras britânicas será perfeito para que o país seja endêmico de malária2. O aumento da temperatura global, que por sua vez interfere na temperatura corporal dos mosquitos anófeles, vetores do protozoário causador da malária, acelera o desenvolvimento larval, diminuindo o tempo necessário para que se tornem mosquitos adultos. Ademais, a elevação das temperaturas promove a rápida digestão do suprimento de sangue, o que aumenta a fecundidade, melhora a aptidão reprodutiva, e intensifica a frequência alimentar do mosquito. Ou seja, mais mosquitos, em menos tempo, mais picadas por mosquitos, logo, maiores chances de contrair malária3

Os impactos das Mudanças Climáticas na saúde pública não se restringem às doenças que já conhecemos, como também, possibilita o surgimento de novos agravos. Diante de ecossistemas destruídos, espécies se deslocam em busca de novos hábitats, intensificando o contato entre animais que normalmente não se encontrariam, e dessa forma, criando oportunidades para que patógenos encontrem novos hospedeiros. Em se tratando de aves silvestres, as mudanças climáticas interferem no padrão migratório aviário.  Em suas novas rotas, pássaros encontram porcos, cavalos, humanos, animais marinhos, e uma série de pássaros domésticos dos quais normalmente estão isolados. É justamente nesse encontro que um vírus aviário de baixa patogenicidade pode ser transmitido a outros vetores e se transformar em espécies mais letais, como se suspeita ter sido o caso da Gripe Espanhola4.  

Sem contar com todos os diversos microrganismos e parasitas que podem estar há anos congelados no permafrost e que gradualmente serão novamente liberados a natureza com o derretimento da camada de gelo.  

O que parece ainda como um futuro distante na verdade já faz parte do presente de diversas espécies animais. As variações de temperatura estão tornando os anfíbios mais sensíveis ao fungo Batrachochytrium dendrobatidiscausador de uma doença infecciosa chamada quitridiomicose, principal causa do declínio da população de anuros (sapos, rãs e pererecas) no mundo5. Em 2015 quase dois terços da população mundial do antílope anão Saiga foi subitamente exterminada. O agente causador: Pausterella multocidauma bactéria natural da microbiota das amígdalas da Saiga. Suspeita-se que o aumento da umidade do ar e das temperaturas teria mudado o comportamento da bactéria, antes amigável, para letal6. O que impediria que o mesmo não aconteça conosco em um futuro não muito longínquo? O que impediria que de um dia para o outro o aumento da temperatura global não ative um gatilho em nossa microbiota ocasionando nossa extinção em massa, ou que nosso corpo se torne mais sensível a doenças antes consideradas como triviais? 

Até o momento não há evidências científicas concretas que associem a disseminação do COVID-19 com as Mudanças Climáticas. Mas não seria completamente insensato pensar que as duas coisas estão ligadas. Afinal, estudos apontam que as variações climáticas influenciam na biogeografia, no acesso aos alimentos, hibernação, reprodução e desenvolvimento de diversas espécies de morcegos, os colocando em uma posição de extremo estresse7.  

A origem do novo coronavírus, a vacina, e se há ou não relação entre a doença e as Mudanças Climáticas deixemos a cargo dos cientistas pesquisarem. A nós, meros indivíduos, a resposta já é clara. A crise das Mudanças Climáticas não é apenas econômica, é uma crise de saúde pública, a nossa saúde. 

Referências:

1World Health Organization. Timeline: WHO’s COVID-19 Response. 2020. Disponível em: <https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/interactive-timeline?gclid=Cj0KCQjw7Nj5BRCZARIsABwxDKK515orbbLzup75lNkTO-Ndn-pmET1BKV9YRozZ-poU-8bfe5ZQ6yYaAgF1EALw_wcB#event-115> 

2Lafferty, K.D. (2009). The ecology of climate change and infectious diseases. Ecology, 90, 888-890. 

3Cella, Wilsandrei et al. Do climate changes alter the distribution and transmission of malaria? Evidence assessment and recommendations for future studies. Rev. Soc. Bras. Med. Trop., Uberaba, v. 52, e20190308, 2019.   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0037-86822019000100251&lng=en&nrm=iso>. access on 14 Aug.  2020.  Epub Dec 02, 2019.  http://dx.doi.org/10.1590/0037-8682-0308-2019. 

4Curseu D, Popa M, Sirbu D, Stoian I. Potential Impact of Climate Change on Pandemic Influenza Risk. Global Warming. 2009;643-657. Published 2009 Oct 30. doi:10.1007/978-1-4419-1017-2_45 

5Bradley PW, Brawner MD, Raffel TR, Rohr JR, Olson DH, et al. (2019) Shifts in temperature influence how Batrachochytrium dendrobatidis infects amphibian larvae. PLOS ONE 14(9): e0222237. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0222237. 

6Kock RA, Orynbayev M, Robinson S, Zuther S, Singh NJ, Beauvais W, et al. Saigas on the brink: multidisciplinary analysis of the factors influencing mass mortality events. Sci Adv. 2018;4(1):2314. https://doi.org/10.1126/sciadv.aao2314. 

7Sherwin, H.A., Montgomery, W.I. & Lundy, M.G. (2013). The impact and implications of climate change for bats. Mamm. Rev., 43, 171– 182. 

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