Raio entrevista

Entrevista Rádio Itatiaia – Chuva Bomba e Mudanças climáticas

Na manhã desta sexta-feira (20 de novembro) nosso fundador e diretor Augusto Auler, geólogo, consultor e doutor na área de mudanças climáticas conversou com a jornalista Camila Campos da Rádio Itatiaia para explicar o termo “Chuva bomba” a associação do intenso regime de chuvas observado no município de Belo Horizonte e as mudanças climáticas. Veja a seguir alguns trechos da entrevista.

Camila Campos – Entrevistadora

Praticamente impossível conseguir frear em curto prazo os impactos da chuva da forma como ela tem descido do céu em grandes capitais a exemplo de Belo Horizonte, marcadas por um cenário cinza diante de tanto cimento que tem sobre essas grandes cidades, um problema mundial. A avaliação é do geólogo Augusto Auler que chama a atenção para os picos de intensidade nesse período chuvoso, já ganhando fama entre os especialistas de chuva bomba, aquela que em geral vem rápida, porém forte o suficiente para ultrapassar o que foi planejado quando boa parte das cidades surgiram.

Augusto Auler

A chuva bomba é um termo que eu escutei nos estados unidos, e denota esses eventos de chuva muito intensos e em geral de curta duração e as cidades representam grandes áreas que estão impermeabilizadas para/pela construção de rodovias, ruas, garagens, prédios, casas, calçadas, etc. Ou seja, existe uma concentração de drenagem muito grande, então a água ao cair nessa enorme área cimentada ela não tem como infiltrar verticalmente. Ela vai correndo e se acumulando, e causam verdadeiros rios, verdadeiras enxurradas que não tem como escoar. Então esse é o grande problema das grandes cidades, a necessidade de você canalizar esses rios, e o planejamento dessas bocas de lobo, dos pontos de escoamento para um volume de chuva que atualmente está muito maior. Então essas chuvas intensas causam represamentos, alagamentos.

O problema das chuvas intensas ocorre em diversas cidades do mundo, em Belo Horizonte, particularmente, pelo fato de você ter uma série de córregos e rios canalizados esse problema é mais exacerbado.

O problema das chuvas intensas ocorre em diversas cidades do mundo, em Belo Horizonte, particularmente, pelo fato de você ter uma série de córregos e rios canalizados esse problema é mais exacerbado.

Camila Campos – Entrevistadora

Segundo o especialista com larga experiência internacional na área de mudanças climáticas, na Inglaterra, Espanha e Estados Unidos, só seria possível se pensar em soluções ao longo prazo.

Augusto Auler

De fato, a questão das mudanças climáticas tem acarretado problemas em várias cidades do mundo não é só Belo Horizonte. As nossas cidades foram planejadas para um tipo de clima que basicamente está sendo alterado muito rapidamente. Mais umidade no ar significa chuvas mais intensas e faz com que o volume de água que cai em curto espaço de tempo ultrapassa a capacidade de escoamento para a qual a cidade foi planejada. Isso faz com que as nossas, bocas de lobo, vulgo nome popular (pontos de escoamento), não possuem capacidade para absorverem chuvas mais intensas. Os córregos que foram canalizados há algumas décadas atrás, a maior parte deles, foram canalizados em um cenário em que não existiam essas chuvas de intensidade tão forte, o que faz com que eles transbordem. Por exemplo, ainda estamos em novembro, que não é o mês mais chuvoso, os quais em geral são dezembro e janeiro e já estamos tendo problemas de alagamentos e transbordamentos.

Ao longo prazo a solução realmente envolveria você aumentar a capacidade de escoamento dos vários rios e córregos que estão canalizados no momento. Isso é uma obra de grandíssimo porte. Uma obra que requer tempo e custos financeiros que não estão ao alcance de um mandato, isso envolveria uma solução de longo prazo, no caso anos ou mesmo décadas.

Camila Campos – Entrevistadora

O senhor que tem larga experiência na área de mudanças climáticas, na Espanha, Estados Unidos e Inglaterra, qual que é a avaliação do senhor doutor para esse cenário de tantas cidades brasileiras e até pelo mundo marcadas por tanto cinza, tanto cimento? Se a gente já chegou num ponto que não é mais possível se pensar em soluções de curto prazo o que que cada um de nós poderia fazer para aliviar os efeitos dessa chuva que chega para valer, chega de forma tão torrencial.

Augusto Auler

De fato, não há como você conter a chuva. O aquecimento global leva a maiores níveis de evaporação e faz com que você tenha, de uma forma bem simples, chuvas mais intensas. Então evitar a chuva não há como, você deve se preparar para a chuva. Isso se chama adaptação, resiliência. Mais isso toma tempo. O que deveria ser feito, aumentar a capacidade de escoamento nas cidades brasileiras, algo que é possível em termos de engenharia mais leva tempo e há um custo alto atrelado. Aumentar a capacidade de escoamento desses vários rios e córregos que estão canalizados em baixo de Belo Horizonte. Também é possível, nada que não seja prático em termos de engenharia mas toma tempo e há também um custo muito alto.

O cidadão em si tem que se preparar. Hoje os nossos sistemas meteorológicos estão muito mais precisos, é possível prever com uma certa antecedência de algumas horas ou dias, é possível ter um alerta, a defesa civil tem feito isso com muito sucesso. Alertar a população que esse tipo de evento pode ocorrer, as chamadas Chuvas Bombas, para a população se proteger. E é claro em termos de planejamento urbano evitar a ocupação de áreas próximas a rios (planícies de inundação, popularmente conhecidas como várzeas), próximas a córregos canalizados, evitar circulação nessas áreas durante os eventos de chuva forte e no médio longo prazo eu estou falando de anos e décadas, um planejamento urbano que identifique essas áreas mais vulneráveis. E no futuro você possa talvez até remover essas pessoas que vivem nessas áreas e move-las para áreas mais seguras. É claro que são soluções que envolvem custo muito altos, são soluções que transcendem simples mandatos de 4 anos de prefeitos, é algo que deve realimente ser feito ao longo prazo. Não temos como conter em curto prazo as mudanças climáticas mas podemos pelo menos evitar os riscos associados a elas.

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