Roupas sociais

O Aquecimento Global não gosta das roupas sociais, eu também não

Quem nunca se sentiu estranhamente cansado e desanimado em um dia quente? Imagine agora trabalhar em um ambiente fechado, um escritório por exemplo, localizado em um país tropical, vestindo um paletó, no dia mais quente do ano. Seu corpo estará vivenciando diversas sensações (fadiga, dor de cabeça, tontura, câimbras), mas certamente vontade de trabalhar com afinco será uma das menos presentes.  Você estará padecendo de nada mais nada menos do que “estresse térmico”, fenômeno resultando da combinação de elevadas temperaturas, alta umidade do ar, e outros aspectos ambientais como a ausência de ventos e intensa radiação solar.

Que o aumento da temperatura, e por conseguinte, o comprometimento do conforto térmico, afetam negativamente a produtividade no trabalho é um consenso da comunidade científica já há alguns anos. Então porque a humanidade continua a manter o traje social/esporte fino como o “dress code” ideal para os ambientes profissionais? Qual o sentido em usar roupas quentes e pesadas, que limitam a ventilação, e portanto a dissipação do calor, especialmente em localidades tropicais que por natureza já são extremamente quentes?

O típico traje social (terno, camisa social e gravata) tem sua origem datada no século 17 em território europeu. A gravata que hoje conhecemos é resultado da evolução do conceito original de se utilizar um pedaço de pano para proteger o pescoço (do frio e de inimigos), assim como para fechar o colarinho da camisa, preservando, dessa forma, o calor. No Brasil, a vestimenta chegou junto com os portugueses e demais europeus e acabou permanecendo como parte da herança colonial.

Há quem argumente que o traje social, apesar de ter sido originalmente concebido para um clima completamente distinto, seja importante para manter a classe, compostura, e a imagem profissional no ambiente de trabalho. Basta instalar alguns aparelhos de ar-condicionado e problema resolvido: conforto térmico, elegância e produtividade em um só lugar. No intuito de tentar contornar os efeitos negativos do aquecimento global, estaremos por sua vez intensificando-o ainda mais, com a liberação de emissões fugitivas dos gases refrigerantes do ar-condicionado, que por sua vez influenciam no efeito estufa. Sem contar com as emissões relativas a produção dos aparelhos eletrônicos e do alto consumo de energia elétrica atrelado ao eletrodoméstico. Uma camisa social realmente vale todo esse sacrifício?

Na famosa era da produtividade em que vivemos, deixar de produzir mais por conta de uma peça de roupa parece um pesadelo. Pensando nisso empresas de diversos setores no Brasil decidiram flexibilizar sua política de “dress code” (Itáu Unibanco, Banco do Brasil, Goldman Sachs, Bradesco, B3, Banco Pan, IBM) estabelecendo regras básicas e confiando no bom senso de seus empregados. 

No final das contas não é apenas o planeta que pede pela flexibilização do vestuário, mas os trabalhadores também. Pesquisa realizada nos Estados Unidos com 1.204 funcionários, entre 18 e 65 anos, em diversas indústrias por todo o país, mostrou que 33% dos participantes preferiam adotar um “dress code” mais casual do que ter um pagamento extra de 5 mil dólares por ano. O estudo conduzido pela OmniPulse em parceria com a empresa de recrutamento Randstad também mostrou que 33% dos participantes preferiam pedir demissão (ou não aceitar uma nova proposta de emprego) se fosse necessário seguir uma conduta de “dress code” mais conservativa e inflexível. Cabe ressaltar que essa não é uma pesquisa de cunho científico.

Se queremos mudar o rumo do planeta e da humanidade em relação às mudanças climáticas precisamos mudar não apenas nossas atitudes dentro de casa, mas também em todos os ambientes que transitamos. Não significa que a solução seja jogar tudo para o alto e desistir totalmente de um “dress code”, mas sim começar a questionar o que adotamos e porque o adotamos. Podemos começar por exemplo com a “casual Friday”, permitindo que nas sextas-feiras os funcionários compareçam à empresa vestindo roupas mais confortáveis e de seu agrado, mas sem cair na total informalidade e desleixo. 

É necessário refletir sobre o que faz mais sentido e é melhor para cada contexto, visto que cada localidade e grupo social sofrerá de forma distinta os impactos das mudanças climáticas e, para tanto, deverá achar soluções condizentes com sua realidade. Nas palavras da famosa estilista britânica Vivienne Westwood: “É uma filosofia da vida. Uma prática. Se você fizer isso, algo mudará, o que mudará é que você mudará, sua vida mudará, e se você pode mudar você, talvez você possa mudar o mundo.”

REFERÊNCIAS UNTILIZADAS

  • Casanueva, A., Kotlarski, S., Fischer, A.M. et al. Escalating environmental summer heat exposure—a future threat for the European workforce. Reg Environ Change 2040 (2020). https://doi.org/10.1007/s10113-020-01625-6.
  • Kaushik, D. A., Mohammed, P. A., Tumula, D. P., & Ebohon, P. J. (2020). Effect of thermal comfort on occupant productivity in office buildings: Response surface analysis. Building and Environment, 107021. doi:10.1016/j.buildenv.2020.107021.
  • Nematchoua, M. K., Ricciardi, P., Orosa, J. A., Asadi, S., & Choudhary, R. (2018). Influence of indoor environmental quality on the self-estimated performance of office workers in the tropical wet and hot climate of Cameroon. Journal of Building Engineering. doi:10.1016/j.jobe.2018.10.007.
  • Rogelj, J., D. Shindell, K. Jiang, S. Fifita, P. Forster, V. Ginzburg, C. Handa, H. Kheshgi, S. Kobayashi, E. Kriegler, L. Mundaca, R. Séférian, and M.V.Vilariño, 2018: Mitigation Pathways Compatible with 1.5°C in the Context of Sustainable Development. In: Global Warming of 1.5°C. An IPCC Special Report on the impacts of global warming of 1.5°C above pre-industrial levels and related global greenhouse gas emission pathways, in the context of strengthening the global response to the threat of climate change, sustainable development, and efforts to eradicate poverty [Masson-Delmotte, V., P. Zhai, H.-O. Pörtner, D. Roberts, J. Skea, P.R. Shukla, A. Pirani, W. Moufouma-Okia, C. Péan, R. Pidcock, S. Connors, J.B.R. Matthews, Y. Chen, X. Zhou, M.I. Gomis, E. Lonnoy, T. Maycock, M. Tignor, and T. Waterfield (eds.)]. In Press.
  • Randstad. Is time to modernize your company’s dress code.2020. Disponível em:< https://rlc.randstadusa.com/for-business/learning-center/future-workplace-trends/is-it-time-to-modernize-your-companys-dress-code>.
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