Temos pouquíssimo tempo: os dois últimos volumes do AR6 reforçam que ou agimos agora ou estamos fadados ao fracasso como humanidade

Faz pouco tempo que temos em mãos a totalidade do 6º Relatório de Avaliação (AR6) referentes aos trabalhos dos três grupos de trabalho (WG, sigla em inglês), do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), principal órgão científico sobre ciência climática do mundo, reunindo milhares de cientistas. O primeiro relatório saiu em agosto do ano passado (2021) e falamos um pouco dele neste post, então neste texto focaremos nos principais resultados e conclusões dos dois últimos volumes: o relatório do WGII “Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade” – lançado em março – e o relatório do WGIII “Mitigação das Mudanças Climáticas” – lançado em abril.

Os volumes do AR6 trazem evidências claras sobre os impactos e o avanço das mudanças do clima no planeta. Além estarmos longe de limitar o aquecimento global pelas políticas adotadas até o momento, já estamos sofrendo impactos adversos, perdas e danos, com as mudanças climáticas que nós mesmos induzimos, só que, de forma desproporcional entre setores e regiões, pessoas e ecossistemas mais vulneráveis.

Hoje, 42 a 46% da população mundial, ou seja, 3,3 a 3,6 bilhões de pessoas estão altamente vulneráveis à mudança do clima e essa condição depende de diversos fatores como local, gênero, etnicidade e renda. Muitos dos processos ligados às mudanças climáticas estão aprofundando essa vulnerabilidade e aumentando os riscos, como por exemplo expondo milhões de pessoas a crises hídricas, endemias e à insegurança alimentar.  A mortalidade por eventos extremos como tempestades, enchentes e secas foi 15 vezes maior em regiões mais vulneráveis entre 2010 e 2020.

Segundo o Presidente do IPCC Hoesung Lee “o relatório é um difícil aviso sobre as consequências da inação”, “mostra que a mudança climática é uma grave e crescente ameaça ao nosso bem-estar e a um planeta saudável”, acrescenta. Com 1,1°C acima dos níveis industriais, a caminho do limite estipulado pelo Acordo de Paris de 1,5°C, estamos enfrentando muitos impactos e alguns já são irreversíveis. Ultrapassado esse limite, mesmo que por um curto período, teremos danos irreversíveis a diversos sistemas naturais e certamente com impactos nos sistemas sociais.

As Américas Central e do Sul, por exemplo, estão altamente expostas, vulneráveis e impactadas pelas mudanças climáticas, amplificadas pela desigualdade social, crescimento e alta densidade populacional, além de mudanças no uso da terra como o desmatamento, que gera perda na biodiversidade, degradação do solo e prejudica a economia local. Ao mesmo tempo, nessas regiões, a instabilidade institucional, serviços fragmentados e má gestão da água, governança inadequada, dados insuficientes e a falha gestão dos riscos climáticos, são importantes fatores que dificultam a adaptação local.

No Brasil, teremos longos e mais frequentes períodos de secas levarão à maior migração de pessoas e agravarão a insegurança alimentar, teremos aumento na incidência de doenças transmitidas por vetores como Dengue, Chikungunya e Zika. Inclusive, nas próximas décadas, doenças infecciosas endêmicas e emergentes, sensíveis ao clima, deverão aumentar, bem como doenças respiratórias, devido à maior ocorrência e intensidade de incêndios florestais.

Um aspecto desafiador é que os riscos climáticos estão cada vez mais difíceis e complexos de gerenciar, sendo que muitos deles poderão ocorrer de forma simultânea e combinada entre si, assim como entre os riscos não climáticos, resultando em um risco total composto e com efeito em cascata.

Em relação à mitigação, como ação conjunta à adaptação e extremamente necessária para combater as mudanças do clima, o AR6 também nos trouxe cenários não muito animadores e de urgência como em relação às ações e políticas de redução de emissões que ainda não são suficientes para limitarmos o aquecimento global a 1,5°C.

Na verdade, as políticas climáticas adotadas até então nos levarão a um aquecimento de 3,2°C acima dos níveis pré-industriais. Para limitar a 1,5°C, precisamos de reduções rápidas e profundas. Desta forma, o AR6 pontua que temos no máximo 3 anos, até 2025, para atingir o pico de emissões e reduzi-las em 43% até 2030 e 84% até 2050.

O AR6 ainda expõe as enormes diferenças das pegadas de carbono entre regiões do globo, indicador que nos faz novamente questionar as responsabilidades e a justiça climática em torno das ações de mitigação, já que 10% dos lares são responsáveis por 35% a 45% das emissões de gases de efeito estufa. Países pobres e nações insulares são os que menos contribuíram para as emissões globais – menos de 4% das emissões de 2019 – e são os mais afetados pelos impactos das mudanças climáticas.

O setor energético, por ser um dos grandes emissores de gases de efeito estufa, precisa passar por grandes transições, incluindo a redução substancial no uso de combustíveis fósseis. Para limitar o aquecimento a 1,5°C precisamos diminuir o uso de carvão mineral em 95%, o de petróleo em 60% e o de gás natural em 45% até 2050.

Por outro lado, o setor de energia apresenta o maior potencial e custo-benefício para a mitigação. Com a maior participação e inserção das tecnologias de baixo carbono, energias renováveis como a eólica e a solar podem reduzir as emissões a baixo custo. Agora é muito mais barato e sustentável investir nessas tecnologias que em combustíveis fósseis, ou seja, esse tipo de combustível não é mais competitivo e os investimentos realizados em novas estruturas para exploração desses combustíveis deverão ficar estagnados.

O relatório também destaca que emissões relacionadas ao uso da terra como à agropecuária e ao desmatamento, tem potencial de reduzir emissões até 14 bilhões de toneladas de carbono por ano até 2050 com custos inferiores a US$ 100 por tonelada de carbono. Em termos de redução do desmatamento e transição para energias renováveis o Brasil pode ser uma potência no combate às mudanças do clima.

Outro destaque são as relações de custo dos impactos e soluções que indica onde devemos investir prioritariamente (Figura 1). Já sabemos pelo primeiro volume que quanto mais rápido agirmos menos complexo e oneroso será lidar com as consequências da crise climática. De fato, quando considerado os impactos e medidas de adaptação, cortar emissões interfere pouco no PIB global. Diante disso, deve-se urgentemente ampliar o financiamento climático, mais especificamente em seis vezes segundo o IPCC.

Figura 1: Visão geral das opções de mitigação e suas faixas estimadas de custos e potenciais em 2030. Fonte: IPCC, 2022.
Figura 1: Visão geral das opções de mitigação e suas faixas estimadas de custos e potenciais em 2030. Fonte: IPCC, 2022.

Temos que mudar muita coisa em relação aos nossos modos de produção de energia, alimentos, estilo de vida etc.? Sim, porém a notícia boa é que temos em mãos todas as ferramentas necessárias para mitigar e nos adaptar à crise climática. Apesar do tempo de implementação e tentativa-erro ser pequeno, nós temos as soluções e a urgência em fortalecer as instituições e cooperações internacionais, ampliar o financiamento e trabalhar em conjunto com empresas, setor público e cidadãos.

Mais empresas precisam se comprometer e se responsabilizar diante das mudanças climáticas; o setor público deve construir e implementar políticas de clima com foco na intersetorialidade e justiça climática; os cidadãos devem se engajar e exercer o seu papel individual, coletivo e político para a ação climática; os investidores precisam se atentar aos riscos climáticos e a mídia deve informar a população com base na ciência e de forma inclusiva.

Fontes consultadas: IPCC (2022) e Observatório do Clima (2022).

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